poça de água
Contos,  Escrita Criativa

A poça de água

Estava na casa dos 60, tinha um uma roupa aprumada e um bigode enrolado. Enquanto atravessava a estrada, com a mulher um passo atrás, olhava em frente sem notar onde pisada.

– Cuidado com a poça, António. – Disse a mulher num tom monocórdico e sem emoção.

Ele parou, olhou para baixo e viu uma grande poça de água a seus pés. O sol refletia na água parada, o brilho chamava por si.

Fez um sorriso de criança que sabe estar prestes a fazer algo digno de uma forte reprimenda e deu pequeno passo para a frente. Depois outro e depois mais um. Quando deu por si estava a chapinhar na poça de água. Os sapatos de estilista batizados com a irreverência da idade que permite fazer o que sempre lhe vedado. Brincar.

– O que estás a fazer, António? – perguntava a mulher, perplexa. – Vais ficar todo sujo e ainda vamos chegar atrasados.

Mas ele não respondia. Não estava ali. Não era a mulher que ele ouvia, mas a sua mãe. Com a pequena diferença de que agora podia fazer ouvidos mocos.

De repente era o menino de 5 anos, com uma camisa engomada, calções castanhos presos com suspensórios, sapatos de vela e meias brancas até ao joelhos. Aquele menino que, a cada vez que saía de casa em dias de chuva, tentava soltar-se da mão da mãe e saltar na poça em frente à sua porta.

Sempre em vão. Sempre uma missão impossível.

De repente era o jovem fechado nas vontades dos adultos, sem conhecer os pequenos prazeres de uma rebeldia aqui e ali. Com o caminho traçado ainda antes de nascer, com um futuro de regras e poses cuidadas.

E água ali a chamá-lo como um vento que despenteia quando corremos sem destino só pelo prazer de sentir a brisa a bater no rosto e deixar tudo para trás.

Ele volta a olhar para cima, como quem acorda de um sonho. Olha para a mulher e estende-lhe a mão.

– Anda.

E com apenas uma palavra cria um novo mundo. Um lugar onde podem viver novas experiências de dedos entrelaçados. Onde chapinhar na água se torna mais importante do que qualquer compromisso ao qual nenhum que ir. Onde o futuro se estende tão brilhante como quando o sol reflete na água parada.

Um mundo com espaço para os dois, lado a lado, e não a caminhar separados como se tinham visto até há poucos minutos. Esperança. Recomeço.

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