caminho (des)traçado
O caminho estava traçado e o tempo contado. Não era um dia normal, mas também não era novidade. Um caminho mais do que habitual, uma pastelaria bem conhecida. O pedido estava meio decidido na mente. A porta estava trancada. Fechado para férias. E agora?
O tempo continuava contado e agora tinha de voltar a trás. Vasculhei na memória um sítio onde ir sem demorar muito tempo. Fui dar a uma rua a que passo ao lado há anos, porque simplesmente a rotina deixou de passar por ali.
Um lugar tranquilo e bonito estava à minha espera. Na vitrine não já não havia muita coisas. Efeitos do dia estar a chegar ao fim. Um bolo de chocolate com bom aspeto estava ao centro a olhar para mim. Bolo de mousse de chocolate sem farinha, disse a senhora ao balcão.
Pareceu-me bem, pedi e fui para um canto com a minha fatia. Há dias em que tudo o que apetece é um doce e se for chocolate melhor. Era um desses dias, mas mesmo que não fosse, a reação iria ser a mesma. Dou a primeira garrafa e solto um suspiro de quem come algo que apela todos os sentidos e não só o paladar.
Gostava de ter comido devagar e degustar mais lentamente. Mas tenho zero autocontrolo com sabores dos deuses e aquela bonita e deliciosa fatia desapareceu num piscar de olhos.
Fiquei mais um pouco a desfrutar a frescura e paz da Casa da Avó Gama. Afinal o tempo estava contado, mas a vantagem de andar a passo de corrida tem as suas vantagens. Pensei o quão parvo era não entrar neste recanto há anos e fiz uma nota mental para voltar mais vezes.
Às uma porta fechada, pode ser a oportunidade de comermos um bolo de mousse de chocolate divino. E de nos lembrarmos de sair das ruas de sempre e de voltar a sítios bonitos de vez em quando. Só porque sim. Só porque é bom. Só porque merecemos.


