Capa
Olha para a janela e lá está a vizinha do prédio da frente, na sua estranha rotina matinal. Calça os sapatos, ajeita a saia, abre o armário da entrada e finge tirar algo que coloca nas costas. Depois, sacode o cabelo, sai de casa e sobe a rua, quase sem os pés tocarem no chão. Mais parece ir a voar. Todos os dias repete os mesmos gestos. Todos os dias sai de casa com um sorriso rasgado e uma luz que sobrevive, até, aos dias mais escuros.
A mulher da janela nada vê, porque vive aprisionada entre (pre)conceitos que a fazem acreditar que tem de seguir regras apertadas e ser um peão nos ideais desatualizados da sociedade. Por seu turno, a vizinha vê uma capa brilhante e colorida de super heroína, de quem nasceu para lutar, quebrar barreiras, seguir os sonhos.
A mulher sem nome tem uma capa só sua. Uma capa invisível aos olhos de quem tem o pensamento fechado. A mulher sem nome parece voar, porque o chão não lhe basta. A mulher sem nome é tantas vezes incompreendida porque muita gente não tem a capacidade de viver os sonhos ao invés de viver a sonhar. A mulher sem nome, não tem nome porque é um símbolo, porque é mais que um título, é uma filosofia. E lá seguiu a voar rua fora, a colorir o mundo com a sua capa visível só para quem quer ver.
Marisa



2 Comments
Andreia Morais
Quantas lutas não travamos em silêncio, sendo os nossos super-heróis!
Adorei o texto *-*
Marisa Vitoriano
Obrigada *-*