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Mundos à parte
A festa e o luto andam de mão dada. Um começo e um fim. Mais um ano de folia, mais um ano de saudade. Contam-se os dias para o próximo festejo. Faz-se por esquecer da dor que aperta o peito e não sai. Um sorriso e os olhos a brilhar pelas luzes do arraial. Um coração apertado a olhar para o céu, à procura de parte que se perdeu na madrugada distante. Fogo de artificio a colorir a noite. Explosões a encobrir os dias. Uma banda a cantar sob holofotes. Um anjo a dançar na escuridão. Opostos que convivem a milhares de distância. Dispostos que se dividem por não se esquecerem. Uma tradição feliz. Uma memória que dói. Mundos à parte. União. Saudade. Alegria. Tristeza. Tudo se junta na esquina do coração que cresce de histórias e se encolhe pela história. A matemática diz que este é o dia mais perfeito do ano. Mas a matemática não conta as vezes que o coração chora em silêncio, virado do avesso numa estrada vazia. Portanto, o que sabe ela de perfeições? Ponham de lado as equações e deixem a música tocar só mais uma vez. Para me acalentar a saudade, enquanto caio…
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Medo da liberdade (ou da falta dela)
Cá em casa temos uma caturra há 19 anos. É daqueles pássaros de gaiola que nunca saiu de lá, com muita pena minha, mas nunca conseguimos educá-la? domesticá-la? fazer com que fosse seguro para ela sair da gaiola sem se magoar e fugir sem saber como sobreviver? Ela adora ter a nossa atenção, interagir connosco e em especial quando lhe damos comer no bico. Mas ai de quem lhe tente tocar! Um dedo é o seu pior inimigo e ela entra logo em alerta máximo. Há uns dias abrimos a porta da gaiola para ver o que ela fazia. Chegou-se para o ponto mais afastado possível e começou a soprar com medo. Demos-lhe a liberdade e ela esconder-se, protegeu-se. Porquê?! Porque a realidade dela é aquela gaiola há demasiados anos e para além daquele espaço está o perigo e o desconhecido. Medo da liberdade ou do desconhecido? A nossa caturra tem medo da liberdade porque não a conhece e, ao vê-la assustada naquele momento, eu encontrei-me ali também. Já tive muitas vezes medo da liberdade por ser algo desconhecido, com o qual não sabia lidar e não podia controlar. Muitas vezes encolhi-me no recanto mais escondido da minha zona de…
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viver é dançar sem saber a coreografia
Viver é dançar sem saber a coreografia. Muitas vezes quis ser bailarina profissional. Não para estar em palco, mas para saber dançar pela vida. Saber cada passo, ter a musicalidade no corpo para me deixar levar pelos dias de forma leve e fluída. Mas para ser excelente é preciso anos de treino e a vida é breve. Não temos tempo para ensaios. Vivemos na beleza do improviso como quem dança sozinha no quarto.



