duologia a casa no mar cerúleo e algures para lá do mar: uma metáfora para a atualidade
Em julho li o segundo do livro da duologia A Casa no Mar Cerúleo e Algures Para Lá do Mar e foi uma chapada de realidade e um abraço de esperança.
A Casa No Mar Cerúleo
Em A Casa No Mar Cerúleo conhecemos o orfanato da ilha Marsyas que acolhe várias crianças mágicas. Arthur Parnassus, o seu cuidador, e Linus Baker, um funcionário do Departamento Responsável pela Juventude Mágica que vai inspecionar o orfanato.
As crianças são Talia, um gnomo de 200 anos, Phee, uma fada da floresta, Theodore, uma serpe, Sal, um rapaz que se transforma num lulu-da-pomerânia, Chauncey, uma bolha verde amorfa e Lucy, o anticristo.
Ao longo de A Casa no Mar Cerúleo vamos conhecendo os segredos da ilha e os traços mais intímos de cada personagem. Aqueles seres mágicos mostram-se apenas crianças curisosas, sonhadoras e com muito amor no coração. Mas nem toda a gente consegue perceber isso. A maior parte das pessoas teme-as — incluindo o departamento com a missão de os proteger. E Linus tem a difícil escolha de tomar um lado e defender estas crianças e deixá-las crescer como qualquer outra, ou expô-las à mercê de quem não as compreende e privá-las da liberdade que têm.
Algures Para Lá do Mar
Em Algures Para Lá do Mar, Arthur Parnassus está à espera de adotar as crianças que acolhe no seu orfanato. Mas até lá tem um longo caminho a percorrer.
Arthur é chamado a testemunhar perante uma comissão de investigação do Departamento Responsável pela Juventude Mágica. Nesta sessão, vai falar sobre o seu passado e a defender os direitos das suas crianças.
Como se não bastasse, ainda vai receber uma inspetora do Departamento com a missão de encontrar falhas e defeitos em todos os habitantes da ilha Marsyas.
Além disso, Arthur ainda recebe uma nova criança para cuidar. David é um ieti com um passado difícil, que só precisava de amor e estabilidade, mas vê-se no meio do caos que o orfanato está a passar.
Em Algures Para Lá do Mar, ficamos a conhecer melhor o passado de Arthur e as razões que o levam a ser como é e a fazer o que faz. E confesso que esta foi a parte mais emocional do livro. Aquela que me deixou lavada em lágrimas e com o coração muito apertado.
Entre a realidade e a ficção
Mas não foi só a história de Arthur que me tocou. Na verdade, eu passei este livro todo de coração nas mãos.
Foi também muito tocante ver a evolução de todas as crianças do primeiro para o segundo livro. Deu aquela sensação de orgulho de quando vemos um irmão mais novo a crescer.
E depois toda a mensagem deste livro aliada à altura em que o li, tornou a experiência ainda mais envolvente. Encaro a história de A Casa no Mar Cerúleo e Algures Para Lá do Mar como uma metáfora em que os seres mágicos representam as minorias — especialmente a comunicadade LGBTQIA+ — e o Departamento representa os ideais de extrema direita.
É uma história que representa bem aos preconceitos que esta comunidade em particular, e as minorias no geral, sofrem e toda a luta de que têm de travar dia após dia para viverem a sua liberade.
Tudo isto são questões que já me tocam bastante. Mas para ajudar à experiência imersiva que foi esta leitura, ainda comecei a ler o livro no rescaldo das eleições…
Sim, o livro Algures Para Lá do Mar pareceu-me demasiado real e atual a um ponto de ser assustador.
Mas é assim que vemos a qualidade de um livro não é? Quando nos enche de sensações e emoções e nos leva a viver as histórias das personagens como se fosse a nossa. E nisso TJ Klume entregou tudo.
Além disso — ou por tudo isto — os livros A Casa no Mar Cerúleo e Algures Para Lá do Mar são um belo exercício e reforço de empatia. Ajuda-nos a conhecer diferentes realidades e a perceber que no fundo somos todos iguais, somos todos pessoas e todos temos os mesmos direitos.
É daquelas leituras que deviam ser obrigatórias logo desde cedo, para contrariar o aumento de violência e preconceito a que temos assistido


