Apesar do Sangue, Rita da Nova
Apesar do Sangue fala sobre a complexidade das relações familiares de uma forma intensa e sem julgamentos.
Glória nasceu para cuidar. Seja do neto, dos gatos, da família, do mundo… É uma cuidadora nata que se preocupa mais com os outros do que consigo mesma. A prova disso é que já não vai para nova e aquilo que mais a preocupa é a vida do neto, Pedro, quando ela lhe faltar.
No meio desta relação entre avó e neto há uma mãe, Helena, que não o soube ser e um ex-padrasto, Eduardo, que nunca se esqueceu do enteado.
A história vai saltando entre os pontos de vista dos quatro protagonistas, o que nos permite ir conhecendo melhor cada um e ficar a perceber o seu passado, os seus pensamentos e as razões dos seus atos.
Escrita aprimorada
A Rita da Nova já tinha provado que é uma excelente escritora nos seus dois primeiros livros. Em Apesar do Sangue ela prova que ainda tem muito para nos dar e é que capaz de superar todas as expectativas.
A sua escrita poética, cheia de metáforas únicas e a propensão para dramas familiares já não são novidade, mas a sua técnica e a forma como constrói a narrativa e as personagens está mais aprimorada. Nota-se uma evolução enorme enquanto autora e dá-me um orgulho enorme acompanhar o seu caminho.
A história vai saltando várias vezes no tempo. O passado e o presente convivem lado a lado e, a forma como isto está feito, é ótima para conhecer melhor as personagens e o porquê de estar a acontecer o que estamos a ler.
Já as personagens estão construídas com um grande detalhe, com um passado bem pensado e personalidades marcantes. Todas elas são muito diferentes umas das outras, mas encontram-se em meios termos e pormenores.
Além disso, também achei muito fácil identificar-me com elas. Seja porque me reconhecia em algumas características, seja porque me lembravam alguém ou até mesmo não me revendo nada, porque estavam tão bem escritas que ficou fácil de as compreender (sim, até a Helena).
Espaço para pensar e conversar
Enquanto li Apesar do Sangue e depois de o terminar, segui e participei na leitura conjunta do Fable e nas conversas no Discord do Livra-te.
Isto tornou esta leitura ainda melhor e mais intensa e ajudou a pensar nas temáticas de forma mais profundo e cuidada.
Gosto muito de leituras conjuntas porque dão espaço para criarmos teorias e conhecermos novas perspectivas, não só sobre o que se passa na história, como também sobre as temáticas abordadas-
E Apesar do Sangue deu pano para mangas em ambos os aspectos. Foram muitas as ideias e palavras trocadas e isso enriqueceu muito a experiência de leitura.
Adoro livros que me fazem esquecer o mundo e não pensar em nada. Mas também adoro livros como este, que põem o meu cérebro em alvoroço com pensamentos sobre a vida e que me ajudam a parar para pensar no que me rodeia e em temas que, muitas vezes, nem me lembro deles.
Uma avalanche de sentimentos
Queria encontrar as palavras certas para explicar o quanto o livro Apesar do Sangue me tocou e quão importante foi para mim, mas fica difícil.
Na verdade nem é assim tão difícil… eu sei tudo o que me fez sentir, os motivos e as alturas. Mas são todas tão pessoais que falar sobre isso era como despir-me à frente de uma multidão.
Com isto, não quero dizer que a história de Apesar do Sangue é a mesma do que a da minha vida. Muito pelo contrário, há ali apenas um facto que quase coincide com a minha realidade. Mas a forma como a Rita criou esta história faz com que seja muito fácil de me rever e à minha família em vários momentos.
Apesar do Sangue conta a vida de uma família específica e consegue representar tantas outras em muitos aspectos. E esta amplitude é o que o torna especial. A Rita da Nova não é fez apenas um retrato de quatro pessoas ímpares, ela olhou para as relações familiares (e não só) e conseguiu juntar todas as suas complexidades numa história bonita, forte e com sentido.
E por falar em sentir… Apesar do Sangue é daqueles livros que nos enchem de sentimentos contraditórios. Havia momentos em que só queria abraçar os personagens e outros em que me apetecia abaná-los. Havia alturas em que só queria ficar a ouvi-los para os conhecer melhor e outros em que queria calá-los e dizer para não se preocuparem.
Mas se houve sentimento que nunca me abandonou foi o aperto no peito e as lágrimas no canto dos olhos (e a escorrer pela cara, juntamente com soluços).
Este sentimento começou logo no início, porque aquele primeiro capítulo fez-me prever o desfecho que mais me custou – provavelmente foi um sexto sentido apurado pela memória – e ficou comigo até agora, quase 48h depois de ter terminado a leitura.
E sei que vai perdurar com intensidade durante mais algum tempo. Depois há de se dissipar no meio da rotina, mas vai voltar de cada vez que me lembrar desta história.
Enfim, ler Apesar do Sangue foi mais do que uma simples leitura. Foi uma experiência sensorial e intensa que vou guardar para sempre no coração.



2 Comments
Mariana Leal
Tão bom ver as novas autoras portuguesas a despertar estes sentimentos nos leitores <3
Apesar de seguir a Rita há muitos anos no blog ainda não a conheço como escritora, mas tenho cá "As Coisas que Faltam" para ler
Marisa Vitoriano
É mesmo bom! Gosto muito da Rita enquanto criadora de conteúdo e sou fã dela enquanto autora desde o primeiro livro.