livros que nao podia ler antes 25 abril
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livros que não podia ler antes do 25 de abril

Na semana do Dia Mundial do Livro e o Dia da Liberdade, decidi juntar estes dois eventos e falar sobre os livros que não podia ler antes do 25 de abril.

Antes de avançares na leitura, Quero já esclarecer duas coisas: primeiro que não vou falar de livros censurados pela ditadura, mas dos livros que habitam as minhas estantes; e segundo que este artigo vai conter umas doses de ironia e sarcasmo.

O ano passado fiz um vídeo a dizer “livros que não podia ter se não tivesse havido o 25 de abril” e depois mostrava as minhas estantes e dizia apenas “todos” (vê aqui). Talvez estivesse a exagerar, porque lá podia haver um ou outro que passasse pelo lápis azul da censura.

Contudo, a probabilidade de serem todos os meus livros não se prende apenas à censura, mas também ao facto de ser mulher.

E, enquanto mulher, antes do 25 de abril os meus direitos eram bastante escassos, incluindo o de aprender. Se tivesse conseguido fazer a quarta classe teria sido uma sorte. Mas não acredito que tivesse ganho grande interesse e muito menos tido tempo para os livros.

As únicas histórias que iria ter, eram as da minha cabeça a sonhar com uma vida melhor e um bocado de pão para pôr na mesa. Isso e as histórias que contaria aos filhos que seria praticamente obrigada a ter.

Livros que não podia ler antes do 25 de abril

Antes do 25 de abril haviam listas enormes de livros proibidos. Várias obras formam censuradas, só porque alguém queria que a sua opinião fosse a única. Isto é revoltante!

Nos últimos tempos, observamos um aumento da extrema-direita e vemos muitos dos direitos conquistados no pós 25 de abril postos em causa. Aqui não tomo qualquer lado, pois defendo que os extremismos não são solução, independentemente de serem de esquerda ou direita)

Encarar a possibilidade de ter a minha liberdade vedada é assustador. Ver listas de livros censurados atualmente em vários países, em especial dos Estados Unidos da América, é angustiante.

Estes temas fazem-me pensar. Por isso, olhei para as minhas estantes e pensei quais dos meus livros favoritos, teriam maior probabilidade de serem proibidos antes do 25 de abril (ou se voltássemos àquele regime).

livros que nao podia ler antes 25 abril

Revolução, Hugo Gonçalves

Para começar este livro nem poderia existir antes do 25 de abril, porque fala sobre a revolução. O que é uma pena, porque está aqui uma bela de uma obra prima. Se esquecermos esse pequeno grande pormenor (ou se pensarmos no que aconteceria se voltássemos a um regime de ditadura) este livro seria um dos grandes alvos da censura. Expor a violência do governo e da PIDE, falar abertamente sobre os partidos e simpatizantes da oposição e líderes partidários expatriados seria impensável. Isso e a expressão “ditador-raspador de cozinha”.

Ontem à Noite no Telegraph Club, Malinda Lo

Duas raparigas apaixonadas e que vão a um clube de transformismo, cheio de pessoas de comunidade LGBTQIA+?! Definitivamente que esta pérola literária nunca veria a luz do sol português. Seria um atentado ao puder e aos valores morais da ditadura.

Lê a review do livro Ontem à Noite no Telegraph Club aqui.

Heartstopper, Alice Oseman

Um livro que trata as várias orientações sexuais por tu e que promove a igualdade e o respeito, também nunca seria permitido antes do 25 de abril. Aliás, acredito que a mínima referência a Heartstopper levasse fosse quem fosse para os calabouços da PIDE. Felizmente tivemos a revolução dos cravos vermelhos e agora podemos espalhar a magia das folhas coloridas.

Lê a review do livro Heartstopper aqui.

Jesus Cristo Bebia Cerveja, Afonso Cruz

Só pelo nome, este livro levaria uma cruz gigante do lápis azul da censura. Onde é que já se viu, antes do 25 de abril, proclamar o nome do senhor em vão?! E, ainda por cima, dizer que ele bebia cerveja… Nunca na vida.

Além disso, o livro de Afonso Cruz expõe muito bem a vida de uma família pobre e pouco tradicional numa pequena aldeia portuguesa. Como é óbvio, os “podres” do nosso país nunca poderiam ser expostos de tal maneira.

Lê a review do livro Jesus Cristo Bebia Cerveja aqui.

livros que nao podia ler antes 25 abril

Daisy Jones & The Six, Taylor Jenkins Reid

Sexo, drogas e Rock & Roll também não era bem o género de coisas permitida antes do 25 de abril. A não ser que fosses um membro da PIDE – esses podiam tudo. Por isso, em Portugal nuca se podia ler o queridinho Daisy Jones & The Six. Pelo menos legalmente.

Lê a review do livro Daidy Jones & The Six aqui.

O Dicionário das Palavras Perdidas, Pip Williams

Imagina só o escândalo que seria um livro sobre uma mulher que, em vez de casar e ter filhos, quer estudar, lutar pelos direitos das mulheres e recolher significados de palavras. Pior ainda! Andar nos sítios mais brejeiros, mesmo no meio do povo e da pobreza, a procurar por palavras ordinárias…

Pois, seria mais um livro que levaria um grande risco do lápis azul.

Lê a review do livro O Dicionário das Palavras Perdidas aqui.

Corte & Costura, Márcia Pedroso

Fofocas controversas e escaldantes da nossa realeza seriam outro tema proibido antes do 25 de abril. Onde é que já se viu, difamar os nossos reis e desmistificar a História deste “paraíso à beira-mar plantado”?! ISeria uma afronta!

A Vida Invisível de Addie Larue, V. E. Schwab

Uma mulher que faz um pacto com o diabo porque não quer casar e sonha em conhecer o mundo além da sua aldeia, nunca seria aceite antes do 25 de abril. Este livro não só era censurado, como também seria usado para assustar as jovens moças portuguesas a dizer que se não fossem recatadas e do lar, eram possuídas pelo diabo e excomungadas do acesso ao paraíso.

Lê a review do livro A Vida Invisível de Addie Larue aqui.

Idiotas Úteis e Inúteis, Ricardo Araújo Pereira

Falar abertamente sobre os problemas do povo português? Nem pensar! Aliás, antes do 25 de abril não era só este livro que não podia existir. Era também todo o trabalho do Ricardo Araújo Pereira e de tantos outros humoristas. A censura ia proibir o humor do Ricardo, desde os Gato Fedorento ao Isto é Gozar com Quem Trabalhar e passando pelas crónicas na Visão.

Pelo menos, tal qual como o conhecemos, porque a sua inteligência seria capaz de fazer frente à censura e ainda fazê-la rir-se de si mesma.

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