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Medo da liberdade (ou da falta dela)

Cá em casa temos uma caturra há 19 anos. É daqueles pássaros de gaiola que nunca saiu de lá, com muita pena minha, mas nunca conseguimos educá-la? domesticá-la? fazer com que fosse seguro para ela sair da gaiola sem se magoar e fugir sem saber como sobreviver?

Ela adora ter a nossa atenção, interagir connosco e em especial quando lhe damos comer no bico. Mas ai de quem lhe tente tocar! Um dedo é o seu pior inimigo e ela entra logo em alerta máximo.

Há uns dias abrimos a porta da gaiola para ver o que ela fazia. Chegou-se para o ponto mais afastado possível e começou a soprar com medo.

Demos-lhe a liberdade e ela esconder-se, protegeu-se.

Porquê?! Porque a realidade dela é aquela gaiola há demasiados anos e para além daquele espaço está o perigo e o desconhecido.

Medo da liberdade ou do desconhecido?

A nossa caturra tem medo da liberdade porque não a conhece e, ao vê-la assustada naquele momento, eu encontrei-me ali também.

Já tive muitas vezes medo da liberdade por ser algo desconhecido, com o qual não sabia lidar e não podia controlar. Muitas vezes encolhi-me no recanto mais escondido da minha zona de conforto para não enfrentar a imensidão do mistério.

Ainda tenho muito medo, às vezes. Ainda faço mil planos de fuga e cenários catastróficos da minha cabeça. Mas comecei a pegar nesse medo debaixo do braço e arriscar quer ele queira quer não.

Estou cansada de me encolher a um canto e de não viver tudo o que quero.

medo da liberdade
fonte

Medo como forma de controlo

E isto leva-me a outro lado. Quantas vezes não nos meteram medo para nos controlarem? Mesmo que fosse numa tentativa de proteção.

Não vás para aí que cais e aleijas-te. Não andes sozinha porque podem fazer-te mal. Não fales com estranhos. Não dês a tua opinião porque podem não gostar. Não digas nada porque podem despedir-te. Não queiras mais do que tens.

Não arrisques.
Não tentes.
Não vivas!

E se muitas vezes este medo vem em doses de amor para nos protegerem contra os males do mundo, sem saberem o quão marcante e prejudicial isto pode ser. Noutras ocasiões incutir medo é uma forma de controlo de massas para fazer vencer ideias não tão corretas e cheias de ódio.

A culpa é dos emigrantes. Aquela gente é violenta. Vêm roubar-nos. Querem corromper as nossas crianças.

E mais um sem fim de barbaridades que não consigo nem escrever.

O medo é o pior inimigo da liberdade

O medo é o pior inimigo da liberdade, de nós mesmos e da evolução.

Ficamos parados quando sentimos demasiado medo e privamo-nos de avançar e experimentar novas coisas, de nos testarmos e de crescermos.

Ao mesmo tempo, somos expostos a discursos de medo (e de ódio) que nos fazem ficar de pé atrás perante algumas situações que nem sempre (quase nunca) são assim tão reais. Mas isso não interessa muito, porque hoje em dia parece que uma fake new tem mais valor do que cem notícias verdadeiras.

Sinceramente, um dos meus maiores medos de momento é que o ódio e a falta de empatia para com os outros continue a aumentar. O meu maior medo é que nos tirem a liberdade.

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