Mundos à parte
A festa e o luto andam de mão dada. Um começo e um fim. Mais um ano de folia, mais um ano de saudade. Contam-se os dias para o próximo festejo. Faz-se por esquecer da dor que aperta o peito e não sai.
Um sorriso e os olhos a brilhar pelas luzes do arraial. Um coração apertado a olhar para o céu, à procura de parte que se perdeu na madrugada distante.
Fogo de artificio a colorir a noite. Explosões a encobrir os dias. Uma banda a cantar sob holofotes. Um anjo a dançar na escuridão. Opostos que convivem a milhares de distância. Dispostos que se dividem por não se esquecerem.
Uma tradição feliz. Uma memória que dói. Mundos à parte. União. Saudade. Alegria. Tristeza. Tudo se junta na esquina do coração que cresce de histórias e se encolhe pela história.
A matemática diz que este é o dia mais perfeito do ano. Mas a matemática não conta as vezes que o coração chora em silêncio, virado do avesso numa estrada vazia. Portanto, o que sabe ela de perfeições?
Ponham de lado as equações e deixem a música tocar só mais uma vez. Para me acalentar a saudade, enquanto caio no circulo vicioso de sentir e achar-me sem direito de o fazer.
Deixem a música tocar só mais uma vez, até este dia acabar e a dor começar a dispersar nas células da rotina até transformar-se numa moinha. Até só voltar por uma palavra ou momento de fragilidade. Até à próxima data importante. E voltar tudo ao início.
Repetir ciclos. Seguir em frente com mais ou menos energia. Guardar o passado e passeá-lo a cada novo dia. Um peso que se carrega a custo e que nos lembra do mais importante.
Lembrar de sorrir, porque há quem não nos queira ver tristes. Lembrar de viver, porque há que aproveitar enquanto o podemos fazer. Lembrar de sonhar e de acreditar, porque é tudo o que temos e o que ninguém nos pode tirar.


