QUANDO OS RIOS SE CRUZAM, RITA DA NOVA
À primeira vista, Quando os Rios Se Cruzam fala da experiência de Erasmus da Leonor, uma jovem adulta a precisar de mudar de vida e de mundo. Mas na verdade, é um livro sobre quem somos e o que fazemos quando estamos num sítio novo, onde ninguém nos conhece.
Leonor vai para Turim fazer Erasmus no último ano faculdade e descobre na cidade uma tela em branco. Ela é o tipo de personagem que adoro: bem construída, real, com defeitos, dúvidas, evolução e arrependimentos.
No fundo somos todos Leonor nalguma fase da nossa vida, numa tentativa de fazer as pazes com o passado e lidar com o futuro, enquanto tentamos perecer quem somos no presente. Esta perspectiva colocou o dedo na ferida da minha mente ansiosa e isso fez com que me identificasse muito com ela. Mesmo apesar de não me ver a fazer grande parte das coisas que ela fez e da diferença de idades
Autodescoberta e amizade feminina
Quando os Rios se Cruzam fala da descoberta de uma nova cidade, novas pessoas, experiências e de como tudo isso abre a porta a novas personalidades. É uma viagem que mostra como o sítio onde se está influência quem somos e a forma como vivemos e encaramos a vida.
A Leonor representa isso muito bem… ela é uma pessoa diferente, dependendo do contexto onde está. No livro de Rita da Nova vamos acompanhando a sua mudança e autodescoberta e gostei muito de a ver crescer e ganhar mundo, mesmo que não tenha sido uma evolução 100% perfeita. Ou, se calhar, exatamente porque não foi perfeita! É muito importante haver espaço para errar e mudar e a Rita consegui mostrar isso muito bem neste livro.
Turim também é quase como uma personagem principal, que tem um papel importante na vida de Leonor e nos conquista com a sua personalidade única. Adorei esta abordagem e a forma como a cidade tem o seu protagonismo e nos é apresentada.
A amizade feminina também tem um papel importante neste livro, representada pela relação da Leonor e da Daniela, a sua melhor amiga em Turim. Quando os Rios se Cruzam mostra o valor de uma boa amizade entre mulheres e como isso pode mudar a nossa vida. Tornarmo-nos mais abertas, mais felizes, mais apoiadas e de como elas têm o poder de nos marcar para a vida.
Tensão viciante
Em Quando os Rios se Cruzam há uma atmosfera de mistério e urgência que nos leva a crer que há algo prestes a acontecer, o que torna impossível largar o livro. De repente, estamos em Turim, a viver a mesma vida e ao mesmo ritmo que a Leonor é torna-se difícil voltar à vida real.
O livro começa com uma afirmação chocante e termina com um desfecho inevitável, mas que preferimos não pensar muito nele. Ou isso, ou somos distraídos pela narrativa daqueles meses da vida da Leonor.
Vamos aqui falar com honestidade… A Rita soube muito bem enganar toda a gente sobre o desfecho deste livro!
Ao longo da história, fui criando várias teorias para o final e já estava a contar com um acontecimento do género. Mesmo assim, não estava preparada para tudo. Nunca pensei que aquilo pudesse acontecer e que ia ser tão duro. E, definitivamente, não estava preparada para as lágrimas que me apareceram no canto dos olhos.
A arte de saber escrever
A escrita da Rita da Nova é uma beleza, mas isso não é novidade. A forma como ela brinca com as palavras e as transforma em magia é uma arte que poucos têm e que torna cada história em poesia.
É também a prova que não é preciso dizer muito, nem estar com muitos rodeios para escrever algo de qualidade. A beleza está não só naquilo que se diz, como também naquilo que fica subentendido.
Por exemplo, adoro a forma como a avó da Leonor está sempre presente, mesmo não estando, dando um toque de ternura à sua vida e, por consequência, a toda a história.
Ao par da Leonor, os restantes personagens também estão muito bem escritos. Apesar de não terem uma figura tão central, todos cumprem um propósito e têm algo a acrescentar à narrativa. A Daniela e o tio Jorge têm um lugar especial no meu coração. Vejo-os como uma espécie de pilar. A representação daquelas pessoas que tornam a vida melhor, independentemente de onde estamos e do que quer que aconteça.
A Rita já tinha provado que era uma boa escritora com As Coisas Que Faltam, mas com este livro vem afirmar o seu lugar na literatura nacional. Nota-se muito a evolução da sua escrita e no desenvolver da narrativa e das personagens. Quando os Rios se Cruzam é muito diferente do primeiro livro da autora e isso ajuda a notar a evolução e a mostrar que a Rita tem muito para dar e muitas histórias para contar.

Hora das confissões
Este livro tem um elemento muito especial para mim. Ao longo da leitura fui criando uma teoria com base em pequenas frases que encarei como easter eggs. No final comprovei-a junta da Rita e fiquei muito feliz porque: primeiro, as vozes da minha cabeça estavam certas uma vez na vida, e segundo porque está relacionado com algo pelo qual tenho um carinho especial. Mais não digo, para não estragar teorias e surpresas a ninguém. 😅
Agora uma confissão… Li este livro em dois dias, antes e depois do trabalho e nas pausas pelo meio. Mas acho que o podia ter terminado ainda em menos tempo se não parasse tantas vezes para sublinhar excertos.
A vontade de sublinhar é a prova que o livro vai ficar para a vida. Quando sublinho a primeira frase de um livro, tenho a certeza que o vou adorar. Com Quando os Rios se Cruzam aconteceu na primeira página e assim continuou até às últimas. Incluindo nos agradecimentos! Sim, porque a Rita tem este dom de até os agradecimentos e a dedicatória escrever de uma forma especial e emotiva.
Ah e sim, Rita, tenho muita vontade de comprar um bilhete para Turim. Missão cumprida!


